Durante o exercício, o metabolismo acelera devido à maior demanda por oxigênio. Esse aumento gera a liberação de espécies reativas de oxigênio (ROS) nas
Suplementação de Antioxidantes no Esporte

Durante o exercício, o metabolismo acelera devido à maior demanda por oxigênio. Esse aumento gera a liberação de espécies reativas de oxigênio (ROS) nas mitocôndrias. Além disso, o próprio esforço físico ativa determinadas enzimas, resultando em uma elevação adicional dos níveis de ROS. Esses compostos são subprodutos naturais dos processos celulares durante a estimulação muscular.
Os Efeitos das ROS: Vilãs ou Aliadas?
Se produzidas em excesso e de forma descontrolada, as ROS podem desencadear estresse oxidativo, causando danos celulares, fadiga muscular e inflamação (1,2). No entanto, esses compostos também exercem funções benéficas, como a sinalização celular para a ressíntese de glicogênio e adaptações fisiológicas que melhoram o desempenho atlético.
Nos últimos anos, os suplementos antioxidantes — incluindo vitaminas e fitoquímicos extraídos de frutas e vegetais, como quercetina, curcumina e resveratrol — ganharam destaque como uma abordagem não invasiva para reduzir danos musculares, melhorar a recuperação e mitigar o estresse oxidativo. Além disso, há interesse no potencial desses suplementos para aumentar a longevidade e o desempenho esportivo, especialmente em atletas submetidos a treinamentos intensos.
A Questão Central: Até Onde a Suplementação Antioxidante é Benéfica?
O ponto crucial da discussão é: até que ponto a suplementação antioxidante favorece a performance e as adaptações ao treinamento? Como as ROS desempenham um papel fundamental na sinalização muscular — impactando a ressíntese de glicogênio, força, potência e resistência — a eliminação completa dessas moléculas pode ser contraproducente.
A eficácia da suplementação depende de variáveis como a duração e a intensidade do exercício, o nível de condicionamento físico, a alimentação e até mesmo fatores do cotidiano, como estresse, qualidade do sono e exposição a poluentes, que também contribuem para o aumento da produção de ROS.
A Importância do Equilíbrio
O segredo está no equilíbrio: é necessário um ajuste fino entre a produção de ROS e sua neutralização pelos mecanismos antioxidantes naturais do organismo. O corpo humano possui uma resposta adaptativa ao treinamento, aumentando a produção de enzimas antioxidantes endógenas, como a superóxido dismutase, que ajudam a lidar com o excesso de ROS.
Entretanto, a suplementação crônica de antioxidantes, especialmente de vitamina C e E em doses elevadas, pode prejudicar essas adaptações ao treinamento. Esse efeito é semelhante ao evitado por atletas que se abstêm do uso de anti-inflamatórios e relaxantes musculares para não comprometer a recuperação pós-treino.
Nutrição e Suplementação: O Que é Mais Eficiente?
Uma alimentação equilibrada, rica em frutas, vegetais e fibras, fornece uma quantidade adequada de antioxidantes, garantindo sua presença em proporções naturais e sinérgicas para o organismo. Entretanto, nem todos conseguem atingir esse nível nutricional ideal.
Além disso, estudos indicam que a suplementação isolada de antioxidantes, em doses mais altas, pode trazer benefícios específicos, como redução da dor muscular tardia e dos danos musculares pós-treino. Isso pode ser útil em períodos de competição intensa, quando a prioridade é a recuperação e não as adaptações ao treinamento.
Por outro lado, compostos como os polifenóis — encontrados principalmente em vegetais e frutas — apresentam um impacto positivo no desempenho esportivo. A suplementação de quercetina, por exemplo, pode reduzir a inflamação, melhorar a capacidade aeróbica máxima e retardar a fadiga em exercícios prolongados.
Os polifenóis parecem beneficiar o desempenho por duas vias principais:
- Estímulo de vias de sinalização celular, promovendo a biogênese mitocondrial (ou seja, aumento do número de mitocôndrias, o que resulta em maior produção de energia e melhora da performance).
- Aprimoramento da função endotelial, aumentando a produção de óxido nítrico e melhorando o fluxo sanguíneo. Em esportes de resistência, onde o débito cardíaco e a circulação são determinantes, essa melhora pode impactar significativamente o desempenho.
Estudos apontam que uma suplementação moderada de polifenóis (entre 200 e 600 mg) pode aumentar a distância percorrida, a velocidade e o tempo até a fadiga em exercícios de endurance (3,4,5).
A Influência do Perfil Individual na Necessidade de Suplementação
A decisão de suplementar antioxidantes deve levar em conta o perfil do indivíduo:
- Treinamento: Pessoas não treinadas são mais suscetíveis aos efeitos negativos do estresse oxidativo, enquanto atletas adaptados tendem a apresentar maior tolerância oxidativa devido à produção aumentada de enzimas antioxidantes endógenas.
- Dieta: Uma alimentação rica em frutas, legumes, vegetais e grãos integrais já fornece antioxidantes em quantidades adequadas, reduzindo a necessidade de suplementação.
- Fatores biológicos: Indivíduos mais velhos, expostos a altos níveis de estresse, privação de sono ou poluição tendem a ter menor capacidade de lidar com o estresse oxidativo.
- Tipo e intensidade do exercício: Treinos intensos e competições frequentes podem justificar a suplementação, pois a recuperação rápida se torna prioridade.
Conclusão: Suplementar ou Não?
A suplementação antioxidante nem sempre é necessária, e, para a maioria das pessoas, manter uma alimentação equilibrada é a melhor estratégia. No entanto, em situações de alta demanda fisiológica, a suplementação pode ser benéfica, desde que seja feita com parcimônia e dentro de doses moderadas.
O equilíbrio é essencial: nem o excesso de ROS nem sua eliminação completa são desejáveis. O ideal é respeitar as adaptações naturais do corpo e utilizar a suplementação como ferramenta estratégica, quando necessário.
- BRAAKHUIS, Andrea J.; HOPKINS, Will G. Impact of dietary antioxidants on sport performance: a review. Sports Medicine, v. 45, p. 939-955, 2015.
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- CAO, Gexin et al. Polyphenol supplementation boosts aerobic endurance in athletes: systematic review. Frontiers in Physiology, v. 15, p. 1369174, 2024.
- SOMERVILLE, Vaughan; BRINGANS, Cameron; BRAAKHUIS, Andrea. Polyphenols and performance: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, v. 47, p. 1589-1599, 2017.
- BOWTELL, Joanna; KELLY, Vincent. Fruit-derived polyphenol supplementation for athlete recovery and performance. Sports Medicine, v. 49, n. Suppl 1, p. 3-23, 2019.
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